Festas Populares

As Cégadas
( Recolha efectuada na freguesia de Silves pela Beatriz Cabrita, Anabela Lourenço e Isabel Luís )

Srª Dª Maria Vícia Pontes, 64 anos, viúva.

“…As Cégadas, com letras dedicadas a Silves, eram representadas por rapazes e raparigas que sabiam cantar e tocar. Vestiam-se, geralmente, com trajes de mouros e mouras, ou outros, mas, todos eram adequados às músicas que se entoavam.
Quando nos deslocávamos a Loulé, o que acontecia amiúde, ganhávamos, quase sempre, o primeiro lugar.
A juventude do meu tempo não tinha muito por onde se expandir. O convívio entre rapazes e raparigas também não era muito fácil. Por isso, estas festas constituíam mais um pretexto para nos divertirmos.
Aproveitávamos, sempre, tudo o que tínhamos da melhor maneira…”

Festas Populares

O Cinema
( Recolha efectuada na freguesia de Silves pela Beatriz Cabrita, Anabela Lourenço e Isabel Luís )

Sr. Hernani Correia Gordinho, 73 anos, casado.

“…O primeiro Cinema, pelo menos que eu me lembre, que houve em Silves, só passava filmes duas vezes por semana. No Verão, devido ao calor, o Cinema fechava. Em seu lugar fizeram uma esplanada ( onde hoje é a Escola Técnica/Secundária ) e o entusiasmo pelo cinema aumentou.
Hoje os filmes são, sobretudo, comerciais. A finalidade deles é o comércio. Antigamente não. Se bem que também se preocupassem com isso, os filmes eram muito mais divertidos. Houve um que me marcou muito. Ainda hoje me recordo. Era “A Roda” ou “As Duas Orfãs”.
Também se viam filmes portugueses divertidíssimos. Cá em Silves, só em 1930 é que vimos o primeiro filme português: “A Severa”.
Quanto a mim, os filmes antigos eram mais apreciados. Eram muito mais simples, as comédias eram muito mais ligeiras e daí a razão das pessoas apreciarem mais, porque “agruras só as da vida”...

Srª Dª Maria Vícia Pontes, 64 anos, viúva.

“…Ai, belos tempos! Havia três dias de Cinema: Domingo, Segunda e Quinta-feira.
Era engraçado porque, nessa altura, as pessoas tinham lugares de assinatura. Pagavam – não me recordo – um tanto por mês, e tinham o seu lugar cativo ( certo ).
Naquele tempo, passavam-se bons filmes, tanto portugueses como estrangeiros, e, o Cinema estava sempre cheio…”

Festas Populares

O Teatro
( Recolha efectuada na freguesia de Silves pela Beatriz Cabrita, Anabela Lourenço e Isabel Luís)

Sr. Hernani Correia Gordinho, 73 anos, casado.

“… Naquele tempo notava-se um entusiasmo maior, muito mais interesse pelo teatro.
Sabem, Silves sempre teve tradições de teatro. Desde muito cedo. Havia pessoas verdadeiramente entusiastas que ao longo dos anos foram mantendo esta tradição. Nem sempre foi fácil. Aí por volta de 1947, por causa da Censura, o teatro decaiu porque certas verdades não podiam ser ditas. Nós não podíamos dizer o que queríamos. Fazíamos um teatro de miúdos e, era eu ainda miúdo, lembro-me de assistir a uma Récita que me impressionou muito na Cooperativa Operária. Marcou-me muito, gostei muito. Tinha uma música muito bonita, não me lembro da letra, mas lembro-me que a música era muito bonita.
Depois havia também o teatro que era feito pelos alunos da Escola Técnica de Silves, as Récitas.
Havia o Silves Futebol Clube que, nesse tempo, era muito dado a coisas de Cultura – “até tinha um Orfeão” – e onde também fazíamos teatro, e, o Teatro Mascarenhas Gregório onde também representámos, mas, numa fase posterior.
O teatro que se fazia em Silves era um teatro amador, feito por amadores, por verdadeiros entusiastas.
Em 1942, ano em que vim de Lisboa, eu, o Teodoro Fortes, e mais um grupo de rapazes que agora não me lembro o nome, formámos um grupo de teatro. Mandávamos vir algumas peças das livrarias de Lisboa. Com elas fazíamos alguns monólogos, umas canções e uns duetos. Depois, fazíamos uma sequência de textos e representávamos.
Geralmente, e, como intróito, apresentávamos uma canção, um fado. Depois representávamos um pequeno drama ou uma comédia, com frases feitas por nós, das peças que tínhamos mandado vir. No final, apresentávamos um pequeno número de variedades. Isto era muito interessante. Era na sede do Silves Futebol Clube que ensaiávamos.
Tínhamos uma pequena orquestra para nos acompanhar musicalmente. Era formada por uns dez, onze elementos. Era sempre ela que começava os espectáculos, acompanhava as canções e a actuação do Orfeão.
Não fazíamos nada político, mas, nem por isso deixámos de ter os nossos aborrecimentos. Até houve um Tenente ( “Martins” ) que, certa vez, censurou-nos um espectáculo. Não queria deixar-nos actuar porque dizia que o Silves era político. Nessa altura, o Alfredo Garcia ( “O Cavaleiro da Lua”, como era conhecido ) que o conhecia, foi falar com ele e dizer-lhe que a Revista – era este o tipo de teatro que fazíamos – era uma brincadeira sem ofensas, sem maldade e sem política, Se ele não acreditava que fosse ver. E ele foi! Então, reconheceu o erro, mas, como o tinham “informado” mal, só quando viu é que acreditou.
Depois fui-me embora, e, a pouco e pouco, este Grupo de Teatro do Silves Futebol Clube foi desaparecendo.
Começaram, entretanto, a fazer as Récitas ( tipo Revista ) no Teatro Mascarenhas Gregório.
As ideias eram do Prof. Samora Barros que também fazia os cenários e do Zé Sottomayor que era um rapaz com muito jeito.
Os originais das peças e das canções eram feitos pelo João Braz, sempre alusivos a figuras típicas de Silves e aos factos sociais e mundanos da nossa cidade.
Em 1954, quando regressei, de novo, a Silves, quis retomar a minha actividade no teatro.
Nessa altura, e sempre com o meu desejo de colaborar, fizemos uma Revista ensaiada pelo Dr. Mário Ramires e o sucesso foi tal que até fomos representar a Portimão.
Ainda fizemos outra, “Dormir sem Ressonar” ou “Ressonar sem Dormir” ,e, depois parámos.
Mas as pessoas eram muito diferentes.
Antigamente, quando se fazia um espectáculo, as casa estavam sempre cheias, havia mais gosto pelo teatro. Hoje, quando se faz uma peça, as pessoas vão ao primeiro espectáculo e poucas… Dá-se o segundo, e, ao terceiro já ninguém aparece.
Por curiosidade até posso contar-vos o que aconteceu com o Dr. Coroa ( era de Faro, mas já morreu ). O Senhor, com o Grupo dele, veio fazer um espectáculo à Sociedade Filarmónica Silvense. No máximo, estava meia dúzia de pessoas a assistir, mas mesmo assim ele fez o espectáculo.
Connosco já aconteceu pior. Uma noite devíamos estrear uma nova peça ( O Grupo de Teatro “O Gruta” ). Não estava ninguém… Eu vim ao palco, olhei para a plateia e disse:
“- Exmas Senhoras Cadeiras, vamos dar início ao espectáculo… E, fizemo-lo!
O Grupo de Teatro “O Gruta” formou-se em 1981. Quem está à sua frente é a Srª Drª Maria Luísa Anselmo. Uma grande entusiasta. Às vezes até demais. Temos corrido não só todo o nosso Concelho, como temos ido a Loulé, Faro, Alte, Lagoa, Portimão, Olhão e Lisboa, onde somos, sempre, muito bem recebidos.
O Grupo é composto por dezoito elementos. As raparigas são oito. O elemento mais novo é uma miúda, uma revelação, que tem oito anos, e, o mais velho ( “não é preciso dizer!” ) sou eu. Temos representado muitas peças, mas agora temos em cena uma peça infantil e o “Homem Anónimo Português”.
Primeiro, esta peça chamava-se “Homem Anónimo Português, de seu nome Hernani Gordinho”. Foi a maneira de comemorar os meus sessenta anos de teatro. Foi uma homenagem que me fizeram. Mais tarde, retirou-se do nome da peça “de seu nome Hernani Gordinho”, porque ao fim e ao cabo, a peça é uma homenagem a qualquer homem. É o homem anónimo português que pretendemos homenagear.
Muitas das peças que representamos são escritas pela Drª Maria Luísa, mas todas são ensaiadas por ela.
As próprias peças, hoje, são outras.
Eu sou franco. Gostava mais do teatro antigamente. Se disser o contrário estou a mentir. É certo que o teatro agora tem mais mensagem. Também joga mais com a expressão corporal. Antigamente, nós estávamos limitados a um argumento de que não podíamos fugir, mas a representação pedia mais do autor. Nós tínhamos, num gesto ou numa expressão, que traduzir um sentimento, e, as regras de estar num palco eram mais rígidas, mais respeitadas. Havia mais representação. É certo que havia menos liberdade de expressão, mas eu penso que, muitas vezes, a liberdade de expressão tira muito à figuração, à caracterização da figura…”

( Em 1999, no Grupo de Teatro “O Gruta”, à Drª Maria Luísa sucedeu, na escolha do repertório e encenação, a Drª Ana Luísa, e, o Sr. Hernani Gordinho “reformou-se”(?) definitivamente. )

Srª Dª Maria Vícia Pontes, 64 anos, viúva.

“… Recordo-me do teatro do meu tempo e tenho grandes saudades. Hoje, praticamente, não sei nada do teatro que se faz em Silves.
Geralmente não representávamos nenhuma peça. Fazíamos um género de Revista onde eram focados os pontos, as coisas e as pessoas típicas de Silves. Era um grupo de amadores, muito engraçado, que, todos os anos, e, várias vezes ao ano, se juntava para fazer teatro.
Os textos eram, quase sempre, escritos pelo poeta João Braz. A encenação tanto era do Prof. Samora Barros, como do José Sottomayor, duas pessoas que, realmente, tinham muito jeito. A representação era feita por nós, rapazes e raparigas. Chegámos a actuar três noites seguidas, tal era o entusiasmo e a aderência das pessoas.
Os espectáculos eram dados no Teatro Mascarenhas Gregório, onde hoje é a Sociedade Filarmónica Silvense. As receitas eram geralmente para o Hospital e para o Asilo.
Nas nossas récitas aproveitávamos certas figuras típicas da cidade. Por exemplo, havia duas mulheres que, a troco de algumas quantias, faziam compras e recados. Eram figuras muito típicas, sobretudo porque gostavam muito de beber, que eram aproveitadas para o espectáculo. Também me recordo de duas outras figuras masculinas, igualmente, amigas do vinho que, quando estavam bêbadas, tinham diálogos muito engraçados. Também havia um cobrador da Câmara, uma figura muito engraçada, muito típica mesmo. O Mercado Regional ( ver p. ) também servia de inspiração.
Pois bem, as duas mulheres, os dois bêbados ( “O Corcunda e o Calula” ), o cobrador da Câmara, o mercado regional eram figuras e motivos aproveitados para as nossas Récitas.
As músicas que cantávamos eram muitas vezes feitas de propósito para as representações. Havia até uma letra muito engraçada, feita mesmo a Silves, mas que não me recordo. Costumávamos aproveitar as músicas em voga e introduzir-lhes letras, feitas quase sempre pelo João Braz, alusivas a Silves.
Hoje não posso estabelecer comparações, porque conheço mal a vida da actual juventude, mas, naquele tempo, havia um grupo de rapazes e raparigas, e mesmo pessoas já casadas, que colaboravam muito nestas coisas. Nós convivíamos muito. Nos bailes. Nas festas de Carnaval. Nas Récitas e nas Cégadas…”

.Usos e Costumes




. Generalidades
( Recolha efectuada na freguesia de Silves pela Carla Machado e pela Carla Sacramento )


Sr. Eduardo Correia, 87 anos.

- Sr. Eduardo, o Senhor era capaz de nos falar da sua vida quando era mais novo?
“…A minha vida quando era mais novo? Ora! Toda ela foi feita a trabalhar. O meu pai ganhava pouco dinheiro, mal dava para alimentar a família. Por isso nunca pude estudar,
porque tinha que ajudar o meu pai a ganhar o pão de cada dia e que tanto custava.
Divertimentos?! Só aos sábados e aos domingos. Ia ao baile que era organizado no campo e onde se agrupavam os rapazes e as raparigas.
Não havia preconceitos nenhuns, porque toda a gente ia ali para se divertir, bailar, cantar e brincar.
Acreditem que tudo aquilo era uma brega, uma paródia…”

Sr. Inácio Casimiro da Silva, 82 anos.

“…No dia em que fiz cinco anos, a minha mãe mandou-nos, a mim e ao meu irmão mais velho, ir ver se alguém andava a roubar figos, porque as meninas não sabem, mas eu, nessa altura, já era um grande guardador de figueiras.
Como a gente não tivesse visto ninguém, voltámos para casa, e, a minha mãe deu-me cinco réis ( que nesse tempo eram de cobre e prata ) para ir à “Vendinha da Pêga” beber um copo de vinho com o meu irmão e celebrar o dia dos meus anos.
A “Vendinha da Pêga” era uma taberna onde, sobretudo, se vendia vinho e tabaco, mas também era o lugar de confraternização dos habitantes da cidade, onde se jogava às cartas e às damas.
Quando a gente chegou à venda “demos de caras” com o nosso pai a jogar às cartas e eu entreguei-lhe os cinco réis. Ele deu-os, logo de seguida, à vizinha Pêga para que ela nos desse, a mim e ao meu irmão, dois copos de vinho.
(- Não havíamos nós de sair bêbados! – comentou, entre duas gargalhadas, o Sr. Inácio.)
Antes de sair, não me esqueci de dizer ao meu pai para ir jantar cedo, conforme o recado que a minha mãe me dera.
Assim se passou o dia dos meus cinco anos, que eu, apesar dos 82 que já tenho, nunca mais esqueço. Lembro-me “como se fosse ontem”.
Durante a minha juventude e enquanto rapazola, costumava ir aos bailes, onde a chula era a dança mais conhecida.
A chula dançava-se deste modo:
“a gente metia a perna no meio das perninhas das raparigas – ( aqui o Sr. Inácio volta a rir, com um ar maroto ) – e andávamos às voltas. Era uma dança muito mexida e a gente divertia-se muito…”



.Usos e Costumes

. Generalidades
( Recolha efectuada na freguesia de Silves pela Carla Machado e pela Carla Sacramento )


Sr. Eduardo Correia, 87 anos.

- Sr. Eduardo, o Senhor era capaz de nos falar da sua vida quando era mais novo?

“…A minha vida quando era mais novo? Ora! Toda ela foi feita a trabalhar. O meu pai ganhava pouco dinheiro, mal dava para alimentar a família. Por isso nunca pude estudar,
porque tinha que ajudar o meu pai a ganhar o pão de cada dia e que tanto custava.
Divertimentos?! Só aos sábados e aos domingos. Ia ao baile que era organizado no campo e onde se agrupavam os rapazes e as raparigas.
Não havia preconceitos nenhuns, porque toda a gente ia ali para se divertir, bailar, cantar e brincar.
Acreditem que tudo aquilo era uma brega, uma paródia…”

Sr. Inácio Casimiro da Silva, 82 anos.

“…No dia em que fiz cinco anos, a minha mãe mandou-nos, a mim e ao meu irmão mais velho, ir ver se alguém andava a roubar figos, porque as meninas não sabem, mas eu, nessa altura, já era um grande guardador de figueiras.
Como a gente não tivesse visto ninguém, voltámos para casa, e, a minha mãe deu-me cinco réis ( que nesse tempo eram de cobre e prata ) para ir à “Vendinha da Pêga” beber um copo de vinho com o meu irmão e celebrar o dia dos meus anos.
A “Vendinha da Pêga” era uma taberna onde, sobretudo, se vendia vinho e tabaco, mas também era o lugar de confraternização dos habitantes da cidade, onde se jogava às cartas e às damas.
Quando a gente chegou à venda “demos de caras” com o nosso pai a jogar às cartas e eu entreguei-lhe os cinco réis. Ele deu-os, logo de seguida, à vizinha Pêga para que ela nos desse, a mim e ao meu irmão, dois copos de vinho.
(- Não havíamos nós de sair bêbados! – comentou, entre duas gargalhadas, o Sr. Inácio.)
Antes de sair, não me esqueci de dizer ao meu pai para ir jantar cedo, conforme o recado que a minha mãe me dera.
Assim se passou o dia dos meus cinco anos, que eu, apesar dos 82 que já tenho, nunca mais esqueço. Lembro-me “como se fosse ontem”.
Durante a minha juventude e enquanto rapazola, costumava ir aos bailes, onde a chula era a dança mais conhecida.
A chula dançava-se deste modo:
“a gente metia a perna no meio das perninhas das raparigas – ( aqui o Sr. Inácio volta a rir, com um ar maroto ) – e andávamos às voltas. Era uma dança muito mexida e a gente divertia-se muito…”

Levantamento

I - GENERALIDADES:

Usos e Costumes
. Festas Populares e Religiosas;
. Poesia Popular. Textos Literários;
. Cantares Tradicionais;
. Contos. Provérbios e Adivinhas;
. Danças Tradicionais;
. O Traje;
. Lendas;
. Rezas. Crenças e Maldições;
. Jogos Tradicionais.

II - BREVE RESENHA HISTÓRICA.

III - A ANTIGA TOPONÍMIA DE SILVES
( Co-relação com os actuais topónimos ).

IV - A IMPRENSA no Concelho de Silves. Cento e onze anos de actividades
Jornalísticas.

V - PRINCIPAIS ACTIVIDADES:

Silves - Tecelagem, Cortiça, Ferro Forjado, Trabalhos em Barro, Cozinha Tradicional,
Doçaria, Rendas e Bordados, Metalurgia e Chaminés.
Alcantarilha - Peças de Folhas de Flandres.
Algoz - Cestos de Verga e Cana, Cadeiras e Bancos de Tabua, Trabalhos de Empreita.
Armação de Pêra - Pesca.
S. Bartolomeu de Messines - Danças e Cantares, Rendas e Doçaria.

Agradecimentos


Grande parte das informações que viabilizaram o presente Levantamento – mantidas, oralmente, de geração em geração – foram-nos transmitidas pelas Pessoas de mais idade ( a quem agradecemos reconhecidas ) e recolhidas em algumas freguesias do Concelho de Silves – Algoz, Alcantarilha, S. Bartolomeu de Messines, S. Marcos da Serra e Silves.
Preocupámo-nos em fazer um trabalho o mais exaustivo quanto possível, razão porque, ainda, não avançámos com as freguesias de Armação de Pêra e Tunes, do mesmo modo que, nas já iniciadas, os vários itens ( propostos ) não se encontram esgotados. Muito pelo contrário!
Todavia, este é o nosso actual e possível contributo, na defesa e preservação de algo que nos é particularmente caro – o nosso património etno-cultural – como raiz da nossa identidade e testemunho de uma memória colectiva que urge conservar, estudar e transmitir aos vindouros.
Sabemos que outros estudos, alguns bem mais elaborados do que o nosso, têm sido estruturados, abrangendo, nomeadamente, algumas das freguesias não tratadas por nós, mas, o que sempre nos norteou e norteia, “é o dar voz aos verdadeiros contadores de histórias”, o nosso povo, sendo nós, meros “escrivães” da sua imensa sabedoria…porque a genuína cultura faz-se de vivências quotidianas, em que “a escola foi, e, nalguns casos, ainda é, a labuta do dia a dia”…
Não foi, nem é nossa intenção, apresentar teses académicas. Antes ouvir e reproduzir as “memórias constituintes da nossa comum memória”.
A todos agradecemos. Do octogenário casal amigo encontrado na Sapeira, ( S. Marcos da Serra ), ao velho pescador do litoral ( Armação de Pêra ).
Permitam-nos, no entanto, que realcemos alguns, tão só, porque…
…Enorme foi o contributo do Rancho Folclórico de S. Bartolomeu de Messines, mormente, do Pedro Mascarenhas, no que concerne ao traje.
Preciosas foram as notas do Prof. Tomaz Ribas, nosso saudoso amigo, sem as quais, as referências às danças populares não teriam sido possíveis.
Contámos, ainda, com alguma colaboração do Joaquim Reis, da Juventude Cultural Silvense, e do Sr. Alexandre Mourinho, no que respeita aos antigos topónimos, e, que nos ajudaram, em parte, na reconstituição da toponímia da cidade de Silves.
Agradecemos, particularmente, ao GTL de Silves, através das Arqtas Teresa Valente e Paula Custódio, assim como à Drª Fátima Matos, ao Eng. Paulo Terra e ao Sr. Ventura, desenhador, porque tornaram viável a definição da malha urbana da cidade e elaboração da sua planta, combinando os antigos com os actuais topónimos.

Realço, todavia, o trabalho de recolha efectuado, em 1985/86:
-pela Fátima Correia, Beatriz Cantinho e Zélia Gomes.

Em 1987
-pela Beatriz Cabrita, Anabela Lourenço e Isabel Luís, em Silves;
-pela Miriam Wolf, em S. Bartolomeu de Messines;
-pela Maria Manuela Gonçalves, no Algoz, e,
-pela Célia Sena e João Paulo, em Armação de Pêra;

Em 1989
-pela Paula Coelho e Maria João Brito,
pela Carla Sacramento, Alexandra Guerreiro e Carla Machado, em Silves;
-pela Luísa Conduto, Rui e Paula Vasconcelos, em S. Bartolomeu de Messines;
-pelo Marco Santinho e Nuno da Palma João, em S. Marcos da Serra.

Em 1990
- pelo Ricardo Baptista.

Sem o contributo de todos e de cada um, porque essencial, o presente Levantamento não teria sido possível.
Muito obrigada.

À laia de........

Praia da Rocha, 27 de Abril de 1990
Prezada Gabriela,
Venho agradecer-lhe, muito calorosamente, o envio do Levantamento dos usos e costumes de Silves, um trabalho interessantíssimo, que me deu um grande prazer receber e que estou a ler deliciada.
Nesta Região onde as tradições são tão esquecidas e o património cultural sofre constantes agressões, este Levantamento tem o enorme mérito de ser uma pesquisa feita com seriedade e sensibilidade, forma activa de defesa da nossa identidade cultural.
Pelo que me tinha dito e pelo que conheço da sua capacidade esperava um trabalho com muito interesse; mas a verdade é que excedeu as minhas expectativas, até por ser muito mais exaustivo do que calculava. Parabéns, e um fortíssimo abraço amigo, com o meu reconhecimento
Margarida Tengarrinha.

Objectivos Gerais do Trabalho

1. OBJECTIVOS

O levantamento etno-cultural do Concelho de Silves, neste Algarve onde as tradições continuam tão esquecidas, e, o património humano, ambiental, histórico e cultural alvo de frequentes e constantes agressões, tem como principal objectivo a pesquisa de informações, como forma de defesa da nossa identidade e raiz da nossa memória colectiva.
Só é possível preservar e defender o que se conhece.
Assim, visamos, ao longo do presente levantamento, para além da pesquisa, a recolha e selecção ( orais e documentais ) de dados e informações sobre a poesia popular, textos literários, danças tradicionais, jogos, traje, lendas, rezas, crenças e maldições, toponímia, imprensa, e, as principais actividades tradicionais ( nomeadamente, cortiça, tecelagem, gastronomia, rendas e bordados, peças de folha de flandres, trabalhos de empreita, olaria, metalurgia, etc. ) das diversas freguesias do Concelho de Silves.

2.ACTIVIDADES DESENVOLVIDAS

2.1.TRABALHO DE CAMPO

2.1.1. 1ª FASE – Pesquisa, recolha e selecção da Informação, utilizando materiais audio e
vídeo.
2.1.2.2ª FASE – Descodificação e passagem a texto escrito ( armazenagem de informação ), tendo em vista os objectivos propostos no número anterior.

2.2.MÉTODOS UTILIZADOS

2.2.1. 1ª FASE – Contactos porta a porta; elaboração de inquéritos; entrevistas de rua;
conversas de café; conversa com familiares e amigos sobre os diversos itens previamente acordados.
2.2.2. 2ª FASE – Face à recolha elaborada, o material é, então, seleccionado em “trabalho
de laboratório”. Se não tiver havido respostas concludentes e exaustivas, procede-
se a um novo trabalho de recolha e selecção.
2.2.3.3ª FASE – Tratamento final da informação.

2.3. MEIOS UTILIZADOS

. Materiais Vídeo e Audio.
. Escrita de Testemunhos Orais.
. Recolha Documental – Fotografias, Postais, Mapas, etc.

***

"Aqui, minha Calliope, te invoco
neste trabalho extremo, porque em pago
me tornes do que escrevo e em vão pretendo,
o gosto de escrever, que vou perdendo..."
"No'mais Musa, no'mais que a lyra tenho
destemperada e a voz enrouquecida,..."
-Luís de Camões, Lusíades, Canto X, Estâncias VIIIª e CXLVª.